Relato: a jovem advocacia e a descoberta do seu verso

18 de março de 2026 · PFSA: Direito em Miúdos

Existem tantas razões pelas quais alguém escolhe advogar. Há quem tenha, ainda cedo, uma convicção inata sobre sua vocação. Mas para muitos, essa experiência pode se aproximar mais de uma alternativa não intencional no meio da jornada profissional do que de uma certeza clara e previamente deliberada.

De todas as formas, sendo esta profissão um projeto planejado a longo prazo conscientemente, seja uma passagem rápida e espontânea, uma experiência breve, ou até mesmo seja um “ponto de interrogação” em seus planos, o fato é que, se você permitir, verá que o exercício deste ofício com certeza lhe engrandecerá.

Para mim, a escolha não veio de um processo de premeditação, ela apenas ocorreu. E hoje, cada vez mais certa e imersa nesta profissão, estou convencida de que a advocacia tem sua forma especial de extrair o melhor de nós nos mais diversos aspectos.

Mas para isso, pode ser determinante ajustar a perspectiva diante da tensão, ansiedade e até entusiasmo inerentes a esta fase inicial.

É comum que as maiores inseguranças de um jovem advogado estejam relacionadas ao seu conhecimento técnico limitado, à crença de capacitação insuficiente e à ausência de identificação clara sobre a sua vocação.

Debruçar-me sobre questões como essas e tantas outras, típicas desta fase, levaram-me a algumas das conclusões aqui expostas, as quais trouxeram mais clareza e assertividade para minha jornada e espero que possam trazer à sua.

Primeiramente, é necessário compreender que ser advogado vai muito além de conhecer as leis, os processos, e os mecanismos da justiça.

Olhe ao redor... as informações estão em todos os lugares a sua volta, conhecimento rápido e acessível, e inúmeras oportunidades de aperfeiçoamento técnico, nos mais diferentes nichos. Ainda assim, tal disponibilidade não necessariamente potencializa a todos. Então o que de fato seria então o diferencial na construção da tão almejada carreira promissora?

Para nos aproximarmos da ideia do que seria o desenvolvimento mais real e sólido possível em nosso ofício, deixo uma citação de Luís Roberto Barros, retirada do livro “Temas de direito constitucional. (Tomo I. 2ª ed. Rio de Janeiro, 2002):

“O Direito é ciência. O Direito é técnica. É preciso conhecer-lhe o instrumental teórico e prático. Mas é preciso ter convicções límpidas e colocar o conhecimento a serviço das causas em que se acredita. É preciso ter paixão e compaixão.”

É fato que o anseio e a busca pela capacitação técnica farão parte da jornada profissional, inegociavelmente. Mas na construção de nossa carreira, é válido chegarmos, tão antecipadamente quanto possível, à conclusão de que ser advogado, antes de mais nada, é ser humano.

Isso lhe revestirá de paixão e compaixão no manuseio do conhecimento, lhe impulsionará com criatividade e perspicácia para ver os melhores caminhos, e te dará a empatia para manifestá-los ao máximo de pessoas possível.

Por isso, caro jovem advogado, é necessário que se prepare o solo que receberá todo a semente de conhecimento instrumental, para que esta cresça com direção assertiva e aplicação efetiva. Este solo é você, são suas bases interiores.

Ser relevante no seu meio, ser um profissional quisto no mercado, acumular causas ganhas, ter resultados evidentes, e avanços financeiros, possui seu valor. Mas a longo prazo, a carreira mais satisfatória e que mais agrega valor no mundo habita próximo de um propósito maior e de atributos inegociáveis.

Possuir isso por si só fará com que todos os demais objetivos acessórios acompanhem naturalmente sua jornada, as demais perguntas sejam gradualmente respondidas e te elevará a um nível diferenciado de atuação.

E dentre tais atributos devo destacar o da humildade. Ser advogado é ser um aprendiz convicto, é carregar a certeza que um sábio mentor uma vez me ensinou: a de que “não sabemos de nada“. Devemos aceitar que a busca de conhecimento do advogado deve ser hábito eterno e quanto mais crescer, mais evidente ficará nossa ignorância.

Reconhecer isso pode envolver certa dor, mas te fará enxergar os inevitáveis erros da jornada sempre como uma oportunidade de autoaperfeiçoamento. Por isso, adote a mentalidade “eu não sei, mas posso aprender”, peça ajuda quando necessário, seja resiliente diante dos fracassos e curioso o suficiente para permanecer em busca constante.

Além disso, seja excelente: isso significa fazer o melhor com o que você já tem e já sabe. Seja paciente: a consistência sempre vence a pressa e te presenteia com clareza e solidez. Seja corajoso: em todo início o melhor tratamento é o da exposição. Se exponha ao máximo de experiências possíveis que te farão crescer. Não é a hora de ter todas as respostas, é hora de testar e ocasionalmente descobrir no que se é realmente bom.

Por fim, recorro a minha citação favorita mencionada no filme “A Sociedade dos Poetas Mortos” em alusão a poesia de Walt Whitman:

“Que bem há em meio a tudo isso, ó eu, ó vida? Resposta: Que você está aqui — que a vida existe, e a identidade; que a poderosa peça continua e você pode contribuir com um verso — Qual será o seu verso?”

No meio dessa jornada, é natural que você encontre sua maneira particular de advogar e imprima no mundo, nessa grande engrenagem do Direito e da Justiça, a sua identidade. E, com isso, espero que deixe seu melhor verso por meio de nossa amada profissão.

Espero ainda, que o início dessa jornada, permeada tipicamente por dúvidas, ansiedades, medos, abra espaço para uma caminhada com mais fluidez, intencionalidade, assertividade e solidez. Que no meio da lida diária de responsabilidades inerentes ao ofício, você tenha a lembrança constante do motivo pela qual caminha e conserve a paixão pelo que faz.

Vamos conversar sobre a empresa

Agendar uma conversa